Enquanto a
população de Porto Alegre é atropelada pelo lobby da construção civil e
de duas grandes empresas desportivas (Grêmio Foot-ball e Sport Club
Internacional) que elege seus próprios vereadores e deputados
para cuidar exclusivamente de seus interesses privados, incluindo a
alteração do Plano Diretor, são os movimentos sociais que dão exemplo.
CistERna na oCupaçãO
No último final de semana (15, 16 e 17 de
janeiro), a comunidade da Ocupação 20 de novembro, formada por famílias
integrantes do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM) ergueu
uma cisterna de 7 mil litros no terreno de uma antiga Casa de Passagem,
abandonada pela Prefeitura de Porto Alegre, no número 1345 da Avenida
Padre Cacique.
O aproveitamento da água da chuva
armazenada servirá para lavagem de carros e irrigação de um herbário. A
ação é resultado do curso "Cidade mais Sustentável Começa Aqui"
promovido pelo Casatierra e
financiada pelo Núcleo Amigos da
Terra Brasil, integrante da Federação Amigos da Terra
Internacional, que além da cisterna trabalhou com as famílias a
organização de uma horta de plantas medicinais e participou de uma
oficina de serigrafia e comunicação popular.
Atividade
reuniu comunidade na Ocupação 20 de Novembro
O curso também permitiu aprofundar a qualificação dos
trabalhadores do MNLM que estão organizados numa cooperativa
de trabalho para construção civil.
Participação
das crianças da Ocupação na preparação da terra para as ervas
medicinais
Além da formação dos trabalhadores para a
construção de cisternas de ferrocimento, o curso também trabalhou o
resgate de conhecimentos populares sobre ervas medicinais, que podem
servir como primeiros-socorros.

Produzir em
todos os espaços disponíveis
Com o curso os trabalhadores estão habilitados
para oferecer o serviço de construção de cisternas. Segundo o texto da
Lei Municipal 10.506 de 2008, que instituiu o Programa de Conservação,
Uso Racional e Reaproveitamento das Águas nas Edificações, as novas
construções deverão captar, armazenar e utilizar a água da
chuva e as águas servidas para serviços de limpeza,
manutenção de jardins e descarga de vasos sanitários. O
reaproveitamento da água da chuva e das águas servidas diminui em 50% a
demanda de água potável.
Estrutura da
cisterna de ferrocimento é erguida em seu local definitivo
O diálogo entre o Casatierra e o MNLM, sobre a
aplicação de práticas e tecnologias mais sustentáveis, iniciou em 2006,
quando o Movimento ocupou um prédio localizado no centro de Porto
Alegre, utilizado pela organização criminosa PCC. O imóvel pertencia a
Caixa Econômica Federal e foi vendido ao proprietário da rede de óticas
De Conto, que revendeu pelo dobro do preço para o PCC que almejava
assaltar os cofres do Banco do Estado do RS. A operação foi frustada
pela Polícia Federal e o prédio ficou num limbo jurídico, período em
que foi ocupado por 36 famílias do MNLM, que iniciaram uma reforma
interna com vistas a moradia e espaço de geração de renda, a partir da
implementação de uma padaria e uma serigrafia.

Trabalhadores
descobrem como e porquê construir cisternas
Uma mega-operação de despejo foi articulada pela
administração P-RBS/PMDB/PPS/PTB na Prefeitura Municipal e pelo Governo
do Estado (P-RBS/PSDB/DEM). Sem ter para onde ir, o MNLM reuniu com
representantes do poder público para solucionar o impasse. As famílias
então foram encaminhadas para terreno na Avenida Padre Cacique, com o
compromisso da Prefeitura de fazer a reforma do abrigo, que nunca foi
cumprido.

Filhos de
trabalhadores descobriram a técnica junto com os
país
A parceria entre Casatierra, MNLM e o Núcleo
Amigos da Terra Brasil possibilita os primeiros passos para a
constituição de uma Escola de Formação para Construção Civil, com base
no resgate de ofícios quase extintos, como marceneiro e serralheiro, de
forma comunitária, com os filhos aprendendo com os pais.
Construção foi
possível graças a parceria com outros grupos organizados
A união surge da concepção de Reforma Urbana que
compreende não apenas a questão da moradia, vai além e compreende
educação, saúde, economia, trabalho, comunicação, cultura, meio
ambiente, mobilidade urbana, participação política e relações humanas
como indissociáveis.
Estrutura da
'tampa' da cisterna é deslocada para seu local
definitivo
Durante os três dias de curso participaram também
integrantes do Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), do Centro de
Estudos Budistas Bodisatva (CEBB/Viamão) e do Movimento Nacional dos Catadores de Resíduos
Recicláveis (MNCR) que possui um galpão de triagem e uma
cooperativa de catadores no local.
Trabalhadores da Ocupação finalizam os
últimos detalhes da cisterna de 7 mil
litros
O Movimento Nacional de Luta Pela Moradia
(MNLM) surgiu no início do anos 90 para estimular a organização e
articulação nacional dos movimentos de luta pela moradia, desenvolvidos
por sem-tetos, inquilinos, mutuários e ocupantes, unificando suas lutas
pela conquista da moradia e o direito fundamental a Cidade.
Passados quase 20 anos o MNLM está presente em
16 estados brasileiros e 25 municípios gaúchos, e tem como principal
eixo de luta uma ampla e profunda Reforma Urbana indissociável das
questões de educação, saúde, economia, trabalho, comunicação, meio
ambiente, mobilidade urbana, relações humanas.
texto: Adriano Marcello
Santos/caSaTiErra
fotos: Fernando Campos Costa/Arquivo
caSaTiErra
Posted at 11:34 pm by adriano.marcello