Entry: Ecologia Interior - Frei Beto Wednesday, May 20, 2009



Somos todos feitos de barro e sopro.

   

Ecologia Interior   (Frei Beto)

    Tens dialogado com teus órgãos interiores? Acariciado o teu coração?

    Respeitas a delicadeza de teu estômago? Acompanhas mentalmente teu fluxo sanguíneo? Teus pensamentos são poluídos?

     As palavras, ácidas? Os gestos, agressivos? Quantos esgotos fétidos correm em tua alma?

    Quantos entulhos - mágoas, ira, inveja - se amontoam em teu espírito?

    Examina a tua mente.

     Está despoluída de ambições desmedidas, preguiça intelectual e intenções inconfessáveis?

    Teus passos sujam os caminhos de lama, deixando um rastro de tristeza e desalento?

    Teu humor intoxica-se de raiva e arrogância?

    Onde estão as flores do teu bem-querer, os pássaros pousados em teu olhar, as águas cristalinas de tuas palavras?

    Por que teu temperamento ferve com freqüência e expele tanta fuligem pelas chaminés de tua intolerância?

     Não desperdiça a vida queimando a tua língua com as nódoas de teus comentários infundados sobre a vida alheia.

    Preserva o teu ambiente, investe em tua qualidade de vida, purifica o espaço em que transitas.

     Limpa os teus olhos das ilusões de poder, fama e riqueza, antes que fiques cego e tenhas os passos desviados para a estrada dessinalizada dos rumos da ética.

     Ela é cheia de buracos e podes enterrar o teu caminho num deles.

     Tu és, como eu, um ser frágil, ainda que julgues fortes os semelhantes que merecem a tua reverência.

     Somos todos feitos de barro e sopro.

     Finos copos de cristal que se quebram ao menor atrito: uma palavra descuidada, um gesto que machuca, uma desconfiança que perdura.

    Graças ao Espírito que molda e anima o teu ser, o copo partido se reconstitui, inteiro, se fores capaz de amar.

     Primeiro, a ti mesmo, impedindo que a tua subjetividade se afogue nas marés negativas.

    Depois, a teus semelhantes, exercendo a tolerância e o perdão, sem jamais sacrificar o respeito e a justiça.

     Livra a tua vida de tantos lixos acumulados.

     Atira pela janela as caixas que guardam mágoas e tantas fichas de tua contabilidade com os supostos débitos de outrem.

     Vive o teu dia como se fosse a data de teu renascer para o melhor de ti mesmo - e os outros te receberão como dom de amor.

     Pratica a difícil arte do silêncio.

    Desliga-te das preocupações inúteis, das recordações amargas, das inquietações que transcendem o teu poder.

    Recolhe-te no mais íntimo de ti mesmo, mergulha em teu oceano de mistério e descobre, lá no fundo, o Ser Vivo que funda a tua identidade.

     Guarda este ensinamento: por vezes é preciso fechar os olhos para ver melhor.

     Acolhe a tua vida como ela é: uma dádiva involuntária.

     Não pediste para nascer e, agora, não desejas morrer.

     Faz dessa gratuidade uma aventura amorosa.

     Não sofras por dar valor ao que não merece importância.

     Trata a todos como igual, ainda que estejam revestidos ilusoriamente de nobreza ou se mostrem realmente como seres carcomidos pela miséria.

    Faz da justiça o teu modo de ser e jamais te envergonhes de tua pobreza, de tua falta de conhecimentos ou de poder.

     Ninguém é mais culto do que o outro.

     O que existem são culturas distintas e socialmente complementares.

     O que seria do erudito sem a arte culinária da cozinheira analfabeta?

    Tua riqueza e teu poder residem em tua moral e dignidade, que não têm preço e te trazem apreço. Porém, arma-te de indignação e esperança.

    Luta para que todos os caminhos sejam aplainados, até que a espécie humana se descubra como uma só família, na qual todos, malgrado as diferenças, tenham iguais direitos e oportunidades.

     E estejas convicto de que convergimos todos para Aquele que, supremo Atrator, impregnou-nos dessa energia que nos permite conhecer a abissal distância que há entre a opressão e a libertação.

    Faze de cada segundo de teu existir uma oração.

    E terás força para expulsar os vendilhões do templo, operar milagres e disseminar a ternura como plenitude de todos os direitos humanos.

    Ainda que estejas cercado de adversidades, se preservares a tua ecobiologia interior serás feliz, porque trarás em teu coração tesouros indevassáveis.

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